Serie  
ArtWear - 1992 -2001
Catálogo/Exposição – “O lado avesso do Guarda-roupa”
Grupo Wearable-MG
Belo Horizonte ,1992 .


Fazer arte ou mostrá-la hoje em dia, avança a um campo muito mais amplo do que a simples tela ou a tradicional escultura de materiais nobres. Se a arte é criar ou mesmo revolucionar no mundo das imagens, temos aqui o sentido do avesso ou a própria avessidade como a principal fonte de atenção quando pensamos no Wearable-MG.
Renovando o conceito impecável da arte e da Wearable-Art em nossa cultura, busca-se nesse momento não o novo, o limpo ou aquilo que acabara de ser feito mas, o refugado, aquilo que se joga fora na maioria das latas de lixo de todas as cidades. Esse é o mundo , um mundo cheio de histórias e que nos pertence como uma espécie de realidade paralela.
A análise se foca no nosso cotidiano, consumista de objetos consumados, ou melhor , acabados e perfeitos. Esse mundo formará um outro descartável, como um reflexo do primeiro, gerando uma espécie de anti-matéria, algo que fica excomungado por sua aparência não nova, não tradicional, alguma coisa que se projeta para o OUTRO LADO à face usual e que será negligenciado e expurgado como um tempo de desprezo na linguagem contemporânea, se desvencilhando de qualquer conceito e se transformando em simples matéria-prima usável.
A reabilitaçao desse mundo chamado aqui de anti-matéria, é o objetivo principal do Grupo Wearable-MG , ou seja, reabilitar e reciclar não só produtos ou objetos mas , toda uma consciência, , todo um processo cultural , a arte é a própria idéia de Wearable , objetivando lançar uma nova visibilidade artística muito além da realidade pura.
O conceito aqui é fazer arte daquilo expelido pela sociedade, desenvolvendo em forma de uso renovável e, atual ao mesmo núcleo urbano que anteriormente o condenara à morte.
Chega-se a pensar em Mondrian, Kandinsky ou mesmo Paul Klee, em algo místico com intençao de revelar realidades imutáveis, ansiando por uma arte de clareza e disciplina que refletisse de certa maneira as leis objetivas do universo.
É essa clareza que o grupo Wearable-MG pretende com sua arte vinda do reciclável.
Fazer arte é reciclar , transformar , usar a varredura num processo objetivo e claro de renovaçao cultural. Entrando a fundo nesse grupo , se percebe uma força histórica bastante interessante lembrada aqui por Kurt Schwitters quando usava bilhetes de ônibus jogados fora, recortes de jornais e tantas outras sobras .
Noto aqui a mesma recusa ao tradicionalismo e ao convencionalismo. Poder-se-ia também a produção da “arte póvera” italiana com sua força expressiva.
Aqui nesse grupo MG tem se na forma Wearable um novo conceito de vestuário , usar o sub-produto e com ele produzir arte pela própria necessidade do ser humano em repensar sua vida cotidiana.
Esses objetos, além da sua forma ousada, divertida e vinda de materiais usados e do próprio lixo, têm a funçao de cultuar o conforto e a versatilidade no vestir.
A proposta do grupo é nova e rica de energia, energia urbana, mecanicista, onde todos participam direta ou indiretamente . O usável vindo do lixo depois de ser manipulado e repensado , encontrará no seu íntimo a própria essência da arte, numa tentativa de forjar uma nova forma, uma nova imagem.
Tenta-se fazer do lixo algo novo, pois com ele uma nova mensagem terá início. Aqui o lixo morre e a arte começa.
O grupo MG surgiu em julho de 1992, contando com quatro artistas, que investem no fazer arte vestível a partir de objetos jogados fora e que , consequentemente, perderam sua funçao na modernidade. Estes objetos já inutilizados, terão pelo Grupo, um novo espaço , uma nova forma que, de certa maneira e ao seu próprio modo, retira a nova ordem e um novo valor estético aos objetos.
Essa procura do novo, procura de expressão , faz da reciclagem uma mensagem com novos valores culturais que codificam a proposta da utilizaçao do caos social e do objeto fora do uso. É usar artisticamente o não mais usável , vestir o não mais vestível, lixo sendo transformado com sensibilidade em arte.
Tudo isso foi aqui imaginado como o avesso de um guarda-roupas gigantesco e com acesso do público em geral. Seu exterior barroco é uma homenagem ao primeiro estilo da Capitania do Ouro no século XVIII, sendo seu interior arrebatado por formas da pós-modernidade onde se manifesta de materiais reciclados e desmontados.
Enfim, uma espécie de arqueologia urbana uma resposta de rebeldia dos anos finais do século XX, uma certa “realidade paralela”, como referiu-se antes. O culto ao descartável e a arte de reciclar coisas.